29 de junho de 2011

O Menino e o Frio

Deu-se o tempo hoje no mesmo clima em que permanecia o coração do menino ao despertar de uma noite insólita. Frio, nostálgico e cinza. É inverno por sinal, e nesta ocasião sua mente se encontra em estado parecido ao do aspecto físico de Holda, porêm com força bruta de lobos na essência que o acompanhava nas idéias. Este momento era visível em sua face que demonstrava uma expressão caída, inerte e pensativa. No banho ao som de vozes cantantes e expressivas ele refletia sobre como seria solidário com a tristeza em sua plena verdade. A tristeza que o intimava a segui-la de mãos dadas. Falhas internas? Externas? Ele não queria entender isso, pois naquele instante permanecia-se no direito de sentir todo o gozo vazio que o habitava naquele momento. 
 
Decorrente ao banho e o tempo frio, sua pele murmurava como seu coração. Arrepios eram constantes, tudo ia se igualando num movimento verdadeiro, assim como Björk em seus clipes excêntricos. Estavam em deleite de vontades o menino e o tempo frio. O tempo de fato já igualava a sua imensidão no menino pelo ser humano que ele é(ra). Embalado pela falta da toalha que havia esquecido de levar, saiu do banho na vontade de sentir toda a realeza do frio em sua pele branca e molhada. Saiu pela sala onde havia uma janela aberta que o trazia no corpo mais sensações de arrepios e frio causando de fato uma leve excitação. Pensava ele no instante de cada arrepio se seria aquela a sensação de uma verdade que queria chegar. Não admitia seu ínfimo desejo a morte momentânea do que havia conquistado sem seu coração pelas mãos da esfinge. Não seria revelada naquele momento de união do tempo e do menino esta face enigmática da esfinge que em horas do passado o tinha trago a vontade de respirar novamente.

O menino numa vontade egoísta e fora de sua consciência queria mesmo sentir o que era deixar de lado aquele calor de humanidade. Por minutos que pareceram horas ele ficou observando pela janela a orquídea violeta que se encontrava a beira do concreto dentro de um vasilhame velho de barro. Sentindo todo o peso gelado de uma brisa que entrava em seus poros como tempestade decidiu seguir para o calor pesado que estivesse em seu quarto, desnudo virou-se em direção ao espelho que havia em sua parede. Observou-se, viu-se morto, estático, frio. Sua tez assemelhava-se as de Oleg Dou, eram tantas as sensações que por um descuido conseguiu sentir certo calor em toda a face que havia perdido o sorriso na noite passada. Era um calor de tensão que havia no correr do sangue pela suas veias inexpressíveis. Não permitiu, não queria este calor naquele momento, desejará num toque o corte de suas artérias. O menino deixava fluir cada segundo de dor em gritos silenciosos.

Não havia muito que fazer, visto que ainda faltavam algumas horas para que ele se cobrisse com as vestes de costume. Negras, sem cor, sem vida assim como sua alma desde 1986. Sentou sobre a cama já arrumada. O menino pelo zelo que tinha ao anjo que visitava seu quarto nas horas posteriores a sua saída para o trabalho, deixava sua cama impecavelmente acolhedora. Seguindo na inquietude que o rebuscava em fatos que haviam acontecido antes do sono, não acreditava no que havia ocorrido. Sentiu-se totalmente impossibilitado de racionalizar toda uma situação que triscava seu frio coração de papel.

Incapaz de permanecer quieto voltou-se de fronte a seu espaço de bagunças e honestidade onde havia um som empoeirado sobre um banco de plástico. Resistindo a tentação de sentir algo mais que a tristeza pensou por vários minutos se colocaria uma música para alçar seus pensamentos em outros universos. Não queria. Mas não resistiu! A música considerada pelo menino arte suprema o venceu, observando os vários discos que ali havia pensou sobre qual seria o melhor a embalar seus pensamentos que faziam parte do clima daquele dia, que era quarta feira de um ano e uma vida qualquer. 
 
Nunca havia entendido a imagem de uma mulher que sempre surgia nos seus mais intensos sonhos sendo como uma Diana. Levado por esta questão não pensou mais e levou-se pela vontade de estar mesmo envolvido pelos braços da Mãe das estrelas e do céu, aquela alma doce da natureza que adentrava em suas veias como seiva viva que nutria seu espírito. O menino mesmo que empolgado internamente pela beleza que enxergará na canção permaneceu-se com sua face quieta. Os músculos não respondiam a nada.

Ficou tão contagiado pelo cântico entoado pela voz da fênix que esqueceu das horas e já havia ter que sair para seguir pelas árduas e desafiadoras horas do dia. Mas isso era o que menos importava. Mais íntimo do tempo ficou ao ver que a brisa que o permeava com bruscas rajadas de sensações estavam realmente fortes entre árvores e asfalto no caminho que o levava a seu destino (in)certo. Ficou feliz pela ventania em sua face e caiu na conclusão que sim hoje era o dia de sua união com o tempo que regia aquela quarta feira preta e branca.

O menino agora senhor de si e consciente da razão de sua tristeza permanecia entre olhares alheios com seu fone aos ouvidos e se deslumbrava com cada lágrima que caia naturalmente de sua face, dentro de um ônibus cheio de almas carentes sentia-se no dever de se permitir mais e mais a visita de sua tristeza outrora adormecida. Não mais guardava suas lágrimas e o pensamento voltava-se ao ser enigmático que havia feito bater seu coração novamente. E este ser aos demais permaneceria misterioso, seria esta esfinge a protetora de seu templo interior.

Perdendo-se na vontade de tudo, na essência dos dias tocados por Holda, Diana e talvez Maria recolheu-se a seu vazio e prosseguiria por este dia fazendo-se parte do tempo que maravilhosamente não havia permitido a entrada de um rasgo de sol que fosse sobre os caminhos onde ele passava.

O menino em sua morada era o que mais havia de verdadeiro, ao derredor das tramas de sua vida as mentiras iam se esvaindo. Não fosse este o princípio ativo da vontade das tecelãs da vida, ele recorreria talvez à rebelde centelha de amor de Antígona.

Desistiu novamente em ser forte e buscar auxilio, queria a virgindade de um ser que não houvesse sequer habitado os livros ou qualquer lugar do macrocosmo.


5 comentários:

  1. A Ladina por aqui, que alegria.

    Bem poderia ser. Mas vamos deixar fadado este texto (conto) à expressão de um coração.

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  2. Tua escrita é bastante intensa sem perder a coerência, tem conteúdo e densidade. Muito bom, parabéns. Abraços!

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  3. Gostei cara.
    É como flutuar quando se está lendo.
    É uma linguagem distante, ao mesmo tempo profunda.

    Ulyane

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  4. Então vir ler o teu blog impulsionada por um comentário seu que vi em um outro blog ^ ^.
    Texto sensível, o li por duas vezes e talvez necessitaria de uma terceira leitura de forma totalmente diferente das outras duas afim de captar sua essência real, a linguagem é calma e transmite a ideia de alguém que reflete.
    ^ ^

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