12 de julho de 2011

Sentimentolística Do(r)(ação)

Uma entonação dialética profanótica de um ser maleabilizado perfeneticamente sobre a licença dascasuada de um emblema mazutrônico nada caótico. Ou totalmente demarecinado pedaçadicamente.


    

Doa-se pedaços de um corpo branco. Várias partes. Vivas, mortas, putrefatas ou vistosas. Escolham o que querem. O fígado, o baço ou o pâncreas. Escolham é grátis, isso mesmo, não têm que pagar. As veias ainda escorrem sangue, optem pelas artérias maiores elas estão mais saborosas. Ossos? Estão brancos acinzentados e amolecidos. Deliciem-se! Ainda encontram-se na validade todas as partes deste corpo pecaminoso e doce. Córneas lúcidas e brilhantes. Levem, levem todo o conjunto dos olhos. Ainda de brinde podem levar as costelas. Não percam minha gente, tudo de graça e ainda com brinde. Isso mesmo, com brinde. O corpo degenerou-se oferecendo-se mesmo depois de esquartejado pelas lâminas de uma faca comprida de cabo branco, brindes. Células, neurônios, anticorpos, líquidos diversos. Isto tudo também pode ser levado.

Corram, corram que tudo vai acabar. A derme encontra-se no fim. Os músculos estão cada vez mais escassos nos cestos. Não percam tempo minha gente, este conjunto de membros inter-relacionados estão fresquinhos. O pulmão ainda pulsa e o pulso cortado ainda se treme na bandeja de prata. Peguem, despeguem, peguem-se. As mãos são macias e muito já acariciaram, servirão como um ótimo utensílio de massagem ou apoio em poltronas. Andem meu povo ainda temos os pés grandes e bem cuidados, são dois. Não esqueçam temos também o intestino e este acompanha a bexiga costurada. Não há que se acanharem é dia de festa e o corpo destrinchado vai chegando ao fim. Multidões ainda querem uma parte disso tudo. Realizem-se, levem e façam o que quiser. Coloquem os dentes num colar ou a vesícula biliar como broche em um paletó. Não posso mais segurar as partes mais desejadas e se não correrem vão perder todas.

As unhas rachadas pintadas de vermelho, os ouvidos, peguem! A boca ainda sorri, levem ela. É muito disputada. Repartam se quiser, tirem as membranas e multipliquem tudo para que ninguém saia de mãos abanando. Todos já sabem desta do(r)(ação) e correm para vir colher partes deste corpo que se definhou no estado inerte de suas ações. O crânio dá um excelente vaso de flores plásticas. Ainda há pedaços minha gente, alguém ai se interessa pelas enrijecidas e voluptuosas nádegas? A bolsa escrotal enrugada e depilada encontra-se intacta e espera entre os nervos ser posta numa caixa, peguem, peguem. O pênis torpe ainda com odor de esperma encontra-se debatendo, vamos cortá-lo e distribuí-lo, não podemos perder mais tempo. Todos querem e se mutuam para conseguir mais partes. Tragam sacolas. Os joelhos estão ainda dobrados, o destrinchem. Dividam-no entre todas as crianças. Elas também podem participar desta do(r)(ação) e levar uma parte deste corpo como brinquedo para acalantar seus sonhos.

O estômago já esta disponível e será sorteado. Peguem suas senhas e cruzem os dedos. Cruzem e tenham fé. Quase não resta mais nada  e a fila para conseguir partes deste corpo só cresce. O sol vai esvaindo-se do céu e começa a chegar a lua. Descansem minha gente, descansem. Vamos cortar minusculamente as partes que ainda restam, todos terão. Todos terão! Pronto minha gente não podemos esperar mais, as glândulas não suportam e estão liberando odores insuportáveis. Levem tudo, tudo. Levem, andem. Não percam tempo. Tenham o prazer de ter partes deste corpo branco, cheio de marcas e com uma estrela. Façam das vértebras monumentos na sala de vocês. Levem as costas também, ela dará uma ótima tela. Esta acabando minha gente peguem tudo que poderem pegar, cheirem tudo que quiserem cheirar, comam tudo que quiserem comer. Engulam. A ali no canto um balde de saliva que podem usar para não se engasgarem com as partes mais duras.

Vamos pessoal estão cada vez mais escassas as partes a serem distribuídas. Hoje é um evento único, jamais tivemos no m(undo)ercado do(r)(ação) de produto tão valioso. É quase chegada a hora da grande parte, ela esta em conserva num recipiente de cristal, embebida por álcool perfumado. E será jogada para o alto, todos terão a chance de pegá-la. Não vão embora. A lua, que linda a lua. Me lembram os olhos de alguém. Gente! Contagem regressiva para a doação da grande parte. Fechem os olhos e contem até três.

Um, dois, três (...)

Quero ver quem vai pegar o cérebro, ele esta extraordinário. Viva a linda senhora que teve a honra e agora terá em seu criado mudo este cérebro maravilhoso. Bem minha gente acabou não há mais o que repartir, todos aqui tenho certeza ficaram muito felizes pelas partes adquiridas. Evento inesquecível muito obrigado. Nem mesmo as poças lamacentas de sangue sobraram. Os vasilhames, cestos e bandejas que acomodavam os pedaços deste corpo também foram levados. Muito obrigado pela presença de todos. 


''Encerra-se a noite e nada havia sobrado dos pedaços daquele corpo em promoção aos sentimentos e vontades de todo o povo abissal que o catava. Havia um beco escuro, nele postes altos com lamparinas acesas. Andando sorrateiramente por aquele caminho que ligava ao nada uma menina de cabelos negros medianos amarrados para trás, baixinha, pele pálida, magrela, vestido floral até os joelhos, sapatilha preta de ballet, olhos grandes caídos, rosto cadavérico e grossas expressões na testa. Ela perdia-se entre as sombras como que fugindo furtivamente daquelas pessoas que como sendo canibais brigavam pelas partes daquele corpo branco. Sim, ela estava fugindo e num momento em que reluzia a luz das lamparinas sobre ela percebia-se que escondido ela levava para seu mundo uma caixa de cristal que continha um coração. Este ninguém havia percebido na do(r)(ação) e agora com o sorriso mais largo a menina seguia cantarolando por ter nas mãos a parte mais importante que pra muitos tinha sido perdida ou esquecida.'' 
                     

2 comentários:

  1. Nossa, que texto FORTE...

    É...poucas (raras) pessoas se esquecem de levar o coração!

    - Do(r)(ação) -

    Um abraço Lucass!

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  2. Sil, que felicidade você por aqui neste espaço que retrata fragmentos dos meus sentimentos.

    Enorme abraço!

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