6 de julho de 2011

A Soma do (Des)Prazer


Evaporar-me-ei!

Como em um último suspiro de ar puro a Inocência se perde nos seus desejos mais devassos, não há mais vontade por parte dela em respirar toda a pureza que outrora lhe era oferecida pela vida. Sua vontade de deixar tudo para trás era certa, nada havia de acontecer que impedisse a Inocência a tomar este rumo. A Inocência agora dilacerada, acabada, descrente e maltrapilha resolve soltar-se em um intenso e majestoso voo em direção ao céu nublado. Era de fato um desejo mundano pairando sobre a consciência conturbada da Inocência.

À frente sem piedade alguma, esta Inocência em estado de coma resolveu adentrar nas vísceras de um Garoto que assim como ela havia perdido a sobriedade do sonho de um ar puro em seus pulmões infantis que num futuro próximo tornar-se-iam pulmões mortos e incapazes.

Em plena harmonia davam as mãos o Garoto e a Inocência, ambos perdidos! Andando sem rumo ou fio de luz algum se deparam com um Corpo Negro, viril e anestésico aos sonhos dos dois. O Garoto em extremo choque de arrepios por sentir toda a capacidade daquele corpo sem face e sem nome andava em direção a nova descoberta. Enquanto que ainda introspecta a Inocência agia sem noção e cada vez mais apertava fortemente as mãos do Garoto.

Passavam-se os minutos, o Garoto e a Inocência teriam de provar daquele que seria a salvação de todos os seus questionamentos. Aberto a recebê-los o Corpo Negro induzia-os a seguir por caminhos que causavam sensações jamais sentidas por eles naquela vida. Devido às novas sensações, em estado de dor, vapores, prazeres, líquidos. O Garoto e a Inocência fundiam-se em um Novo Ser. Com todo o erotismo que proporcionava o Corpo Negro conseguiu ele como num passe de magia unir aqueles dois que seriam uma nova era em sua história.

Fumegante e denso como fumaça o Corpo Negro apertava de forma exuberante num abraço de seja bem vindo aquele Novo Ser que era descendente ao Garoto e a Inocência. Seguiam agora de mãos dadas e se tocando com o olhar. O Novo Ser e o Corpo Negro. Era belo agora para este Novo Ser apenas se lembrar da pureza de um ar que adentrava seu peito no passado, apenas se lembrar e não mais sentir. Sua garganta e língua queimariam agora com a inspiração de novas leis e sentimentos. Sua mente inquieta e pervertida só sabiam manipular os sonhos em torno do Corpo Negro que lhe mostrará a essência maravilhosa do azedume e da putrefação dos espíritos em decadência naquele momento.

Seguiam agora rumos idênticos e era prazerosa a companhia um do outro. Eram passos que cada vez mais faziam extintos aquele antigo Garoto e velha Inocência. Eles não mais habitavam a sombria essência do Novo Ser que se deixava levar pelo beijo seco do Corpo Negro. Era a intenção desta nova fantasia entre os dois, metamorfosearem em mais uma única espécie. O Corpo Negro e seu discípulo viam-se no amor que os incitava a querer mais e mais a proteção um do outro, pois mutuamente tinham se oferecido uma nova respiração, estavam totalmente entregues um ao outro sem força alguma.

Era chegada a hora da união.

Numa miscelânea de sentimentos e sensações físicas iam se envolvendo, era tudo tão intenso que o mundo se intimidava com aquele acontecimento aparentemente pecaminoso que transgredia as leis divinas. Como faíscas de fogo mais uma vez aqueles seguidores de um novo mundo, de um novo sentimento iam se tornando apenas um. Eram cravadas as carnes uma noutra onde se percebia um vindo de dois que já haviam sido três. O passado criminoso do Garoto que se fundiu com a Inocência descrente em um Novo Ser e que agora se entregava a fusão com o Corpo Negro.

Não havia explicação para aquele acontecimento que era irracional a vista de muitos. Mas não se importava este novo que nascia, ele não dava importância alguma para os sentimentos alheios. Era-lhe satisfatória apenas a guerra entre seu coração e sua razão.

Findada a nova fusão entre o Novo Ser e o Corpo Negro não havia palavras que tratassem daquilo que surgia em meio o enxofre. Celebres e festejantes eram os sentimentos que tinham participado daquele ato escarrado de novas buscas e idéias.

Escondido em meio às sombras da fumaça e o cheiro do enxofre quem o via mesmo que por um segundo percebia toda a tensão de um sorriso entreaberto e amarelado. Percebia-se também um olhar de brilho opaco e caído, seus ombros largos e fortes interligados a braços que pareciam dançar sozinhos num ato de sensualidade excêntrica. Saindo daquele ambiente assombroso o ser vindo da última fusão tinha seu andar tão calmo e tão imponente quanto o de um cisne negro ao alçar voo.

O apocalipse do Garoto, da Inocência, do Novo Ser e do Corpo Negro tinha se cumprido. O novo que vinha agora seguiria para semear em sua trajetória histórias de volúpia e horror.

Eram chegadas às horas intensas ao redor daquele que por cuidado manteria em segredo sua face por de trás de sua persona.


5 comentários:

  1. Aos poucos vamos somando (des)virtudes em nós mesmos, seja a Inocência ou o Corpo Negro, e mais uma vez vamos inserindo mais e mais corpos dentro do nosso corpo múltiplo. E multiplicamos o nosso ser, nossa essência e vamos nos tornando muitos, muitos corpos num corpo só. Eis as (des)virtudes do aprendizado do corpo que realizamos todos os dias ao abrir os olhos e a querer seguir em frente. Nos tornamos mais e mais humanos e sem perceber quando olhamos no espelho, há muitos olhos, muitas bocas e muitos segredos (in)dizíveis.

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  2. As nossas somas e nossos pedaços espalhados, por vezes arrancados. Reconstruções, somos elas todos os dias. Todos os dias somos um novo Ser de diversas faces, cores e sons.
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    *não sei do por que mais não conseguia ler seus textos, mais hoje conseguir e estou a gostar de tudo aqui. Em especial esse, achei foda, esse é o melhor termo, pois encotrei pedaços de mim nele. E é tão bom encontrar nossos pedaços mesmo que em outros, assim inesperadamente.

    Um xero

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  3. Isso mesmo: diversas faces, cores e sons.

    •Intrigante, não conseguia ler meus textos? Paira um fragmento rubro sobre minha mente.

    Que alegria você por aqui.

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  4. Resultamos de contínua desfragmentação, somos constituídos por fragmentos de nós e dos outros que em nós habitam, num transgredir que salva.
    Belo texto...

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  5. Concordo plenamente contigo!

    Muito obrigado pelo elogio.

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