1 de dezembro de 2011

Lágrimas veladas


Desta vez guardei-as. Queria senti-las voltando para o corpo como um veneno a rasgar os poros de cada parte de minha matéria. Seria como jogar fora um sentimento que ali brotara – eu nem mesmo sabia descrever que sentimento era esse, novamente como em um grito calado segui andando e o mundo tomava-me como sendo meu espírito um vinho seco destes em promoção num supermercado qualquer. Sentia meu espírito misturando-se com estas lágrimas, que como cães voltaram para suas casas em meio a um quintal de terra batida e vermelha. Não consegui suportar e na primeira esquina adquiri aquilo que em tempos remotos queria me matar; tomava-me conta mais uma vez do corpo este algo misterioso. Segui, andei e não lacrimejei – queria entupir-me. Voltaram completamente secas, não as secretei dos ductos do saco lacrimal. Tornaram-se veneno para mim mesmo, lágrimas deliciosas.

Não pestanejei e aos ouvidos trouxe a canção do paraíso, havia pessoas ao derredor, mas de forma alguma conseguia repará-las; apenas sentia aquele veneno tomando conta do meu corpo, irrigando minhas artérias como um bálsamo falso dos deuses indianos. Deuses esses que pela manhã andavam sussurrando poesias em meus ouvidos, fazendo-me sentir parte de um círculo chamado universo. Queimando, ardendo, sendo dilacerado por dentro e ainda sim agradecendo por toda aquela sensação das lágrimas que por escolha decidi guardar. Não mais quis chorar (...) Alimentei-me do meu próprio veneno chamado sentimento-sensibilidade. Quero agora dopar-me antes que chegue meu sono de tudo isto que corrói minha essência. Entregar-me-ei aos poucos, conservando meu coração numa barrica de carvalho junto do mais adocicado e odiado vinho que é vendido numa garrafa de plástico empoeirada (mais uma vez em um supermercado qualquer).

Bêbado do veneno que me fazia bem – sucumbi [do avesso] brotou-me uma força-fraca descomunal, quero perder-me e assim me achar. Velarei minhas lágrimas por dentro e as tornarei um acúmulo do abraço não dado, do não insistentemente falado, da história não entregue, da cerveja não bebida e do cigarro apagado na palma da minha mão (ótima sensação). Estou indo; aos poucos. Mas com prazer, que faz-me gozar por dentro sentindo toda esta parte do meu ser fortalecendo-se, explodindo. Feliz as células que agora cortejam como num circo de lona furada eu mesmo em profundo êxtase de veneno que são as lágrimas veladas.

11 comentários:

  1. Muito bom, Lucas. Lembra-me o excelente "Noite na taverna", de nosso Álvares de Azevedo: misterioso, noturno, irônico...

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  2. Boa tarde Lucas.
    Você escreve bem e obrigado por comentar no blog clube dos novos autores.
    Amandio relações publicas do blog http://clubnovosautores.blogspot.com
    Bom final de semana

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  3. De timbre pungente este texto, sombrio e taciturno, decadente talvez... mas é o fértil solo onde irrompe a luz redentora!

    Um abraço, Lucas.

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  4. Gostei do texto, bastante sincero e intenso. Abraço.

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  5. Oi Querido passando para desejar uma semana Iluminada, cheia de paz, amor, sabores, que ela seja doce e repleta de luz. Beijos :*

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  6. Parabéns pelo conteúdo do blog!


    Abraço

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  7. Lucas
    Profundo seu texto, lágrimas que precisamos soltar para aliviar a alma e seguir nosso caminho, e você fêz de maneira brilhante.
    Parabéns, moço! Um dia muito feliz pra você!
    Ivana.

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  8. Não sou de palavriar dificil, então sem pomposidade rsrsrs
    Mas Moço que texto lindo e triste e lindo e tão meu ;)kkkk (venho assim chorando por dentro também)
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    São as piores e melhores lágrimas que temos! Chorar por dentro corroei mais, mas por outro lado mostra a nossa resistencia em suporta-lá (ou melhor "nossa força")... - Adorando tudo que não pude ler nos ultimos meses, como sempre você é genial de demasiada sensibilidade e claro foda!
    Xero =* que seja doce seu fim de semana!

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  9. Querido... entorpecer-se com as próprias lágrimas tem lá seus sabores, orgulho e também desgostos. Hoje eu liberei as minhas...Estou leve! O texto é sentido de uma maneira corajosa e melancólica. Muito bom!
    Um abraço cheio de carinho meu querido.

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  10. "Queria senti-las voltando para o corpo como um veneno a rasgar os poros de cada parte de minha matéria"
    Essa parte se fosse no final seria perfeita. Tipo finalizar com chave de ouro. Mas, você fez melhor, finalizou com uma das minhas palavras preferidas: êxtase - de veneno melhor ainda.
    beijo

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  11. Gosto de chorar as vezes, limpa a alma e me impede de "matar" um rs. Adorei a forma como escreve. bjs. Belo blog.


    http://coposcheiosdevodkaerocknroll.blogspot.com/

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